Ginecologia e Obstetrícia

Tratamento da Endometriose com Anticoncepcional: como funciona

anticoncepcional para quem tem endometriose

Suspender a menstruação por alguns meses é um tipo de tratamento muito utilizado em mulheres com suspeita ou diagnóstico de endometriose. Neste contexto, o anticoncepcional passam a ter um papel muito importante no tratamento da endometriose. Isso porque além da contracepção o anticoncepcional irá reduzir a inflamação das lesões, e com isso os sintomas dessa doença podem melhorar parcial ou totalmente.

Assim, a qualidade de vida da paciente é elevada e efeitos como cólica, dores pélvicas e sangramentos podem ser amenizados. Por isso, hoje, o uso do anticoncepcional para quem tem endometriose é considerado, oficialmente, uma terapia eficaz.

Nesse artigo, eu, Dr Tomyo Arazawa, trago para vocês algumas informações importantes relacionados ao uso do anticoncepcional hormonal no tratamento de pacientes portadoras de endometriose. Para receber mais informações, me acompanhe no Instagram @drtomyo !

O que é endometriose?

Endometriose é uma importante doença ginecológica que se caracteriza pela presença de tecidos semelhantes ao endométrio fora do útero.

É a principal causa de dor pélvica e infertilidade na mulher, acometendo cerca de 1 a cada 10 mulheres na idade fértil. Isso representa cerca de 7 milhões de brasileiras com endometriose atualmente.

Principais sintomas da endometriose

Existem alguns sintomas bastante tradicionais, mesmo que eles não se manifestem, necessariamente, em todas as portadoras. São exemplos:

  • cólica menstrual (presente em até 95% das vezes)
  • dor profunda na vagina ou na pelve durante o sexo;
  • dor pélvica contínua;
  • dor ou sangramento para evacuar;
  • dor ou sangramento para urinar;
  • dificuldade para engravidar.

Por que o anticoncepcional é indicado para endometriose

Primeiramente, é importante explicar que a pílula não cura ou elimina as lesões de endometriose. Seu efeito é deixá-las menos ativas, reduzindo a inflamação mensal e consequentemente os sintomas de dor. Ou seja, o uso do anticoncepcional é para controlas os sintomas dessa doença, principalmente os sintomas de dor.

Isso porque o anticoncepcional bloqueia a produção de hormônios naturais, principalmente o estrogênio, através do bloqueio da ovulação. Esss hormônios são os responsáveis por estimular o crescimento de tecido endometrial (camada interna do útero), assim como as lesões de endometriose, que estão fora do útero.

Qual é o anticoncepcional mais indicado para endometriose

Um fato determinante para a eficiência do anticoncepcional para o tratamento da endometriose é conter, em sua formulação, o hormônio progestagênio. É ele que contrapõe a ação do estrogênio sobre as lesões da doença e melhora o quadro.

Existem as pílulas combinadas, em que há a junção dos dois hormônios, mas o estrogênio, nesse caso, é sintético, não age como a versão natural. Portanto, não piora a situação.

Ambos os tipos de medicamento têm uma ação parecida. Assim, cabe ao ginecologista analisar qual é o melhor anticoncepcional para endometriose em cada situação. É fundamental que ele considere o histórico médico da mulher, doenças anteriores, efeitos colaterais da pílula, riscos e benefícios.

Até porque o objetivo de utilizar o anticoncepcional para o tratamento da endometriose é melhorar a qualidade de vida da paciente, diminuir suas dores e proporcionar a ela mais momentos felizes do que tristes.

Por quanto tempo deve-se tomar a pílula para endometriose

De modo geral, nesse caso, a pílula é prescrita para uso contínuo. Muitas vezes, inclusive, sem pausa entre as cartelas. Isso porque, dependendo do grau da doença, se houver uma interrupção, a paciente pode voltar a ter sintomas.

No entanto, quem determina isso previamente é o médico, visando a melhora do quadro e evitar que a paciente tenha algum outro problema ou efeito colateral.

Contraindicações do anticoncepcional para endometriose

Existem situações em que as mulheres podem apresentar contraindicações ao uso de anticoncepcionais para endometriose, como risco elevado de câncer de mama ou de trombose.

Outras, ainda, não se adaptam às reações causadas por algumas pílulas, como dor de cabeça e retenção de líquido. Dessa forma, não conseguem dar continuidade ao tratamento.

Há, também, casos em que o método acaba se mostrando ineficaz, provavelmente porque os hormônios não são capazes de sobrepor-se ao estrogênio e, assim, não promovem nenhuma melhoria dos sintomas.

Uma outra contra-indicação ao uso dessas medicações é quando a paciente está tentando engravidar. Isso porque o uso dessas medicações irá postergar a gravidez

É importante ressaltar que o uso do anticoncepcional não necessariamente irá impedir que a doença avance. Por isso, pacientes com diagnóstico de endometriose e que fazem uso de anticoncepcional devem manter o acompanhamento com o especialista.

Métodos alternativos à pílula anticoncepcional

Além da pílula anticoncepcional para tratar endometriose, outros tratamentos hormonais podem ser utilizadas e apresentam boa aceitação do organismo. O importante é analisá-las com atenção e descobrir à qual delas o corpo se adapta melhor.

  • Dienogeste

O Dienogeste é um hormônio progestagênio direcionado para o tratamento da endometriose. O tratamento com Dienogeste é de uso contínuo, porém não é considerado um anticoncepcional. Tem se mostrado eficaz no controle dos sintomas de muitas mulheres portadoras de endometriose, e os estudos apontam redução do tamanho das lesões com seu uso.. Como qualquer método hormonal, seu uso pode apresentar diversos efeitos colaterais. Entre os efeitos colaterais mais frequentes podemos citar a fadiga, náuseas, dor de cabeça e inchaço.

  • DIU com hormônio (Mirena)

Também é eficaz para o controle de cólicas menstruais e fluxo menstrual aumentado, pois libera progestagênio diretamente no útero, o que pode levar à melhora dos sintomas. Costuma causar menos efeitos colaterais que os demais tratamentos hormonais. Porém, esse método não é capaz de bloquear a função dos ovários, e por isso pode ter efeito limitado para pacientes com endometriose muito avançada e com dores muito intensas. Não costuma ser indicado em pacientes com endometriomas ovarianos, ou seja, cistos de endometriose. Alguns dos efeitos colaterais são o aumento da oleosidade da pele, acne, e em algumas pacientes, queda de cabelo (alopécia androgenética).

Outros métodos hormonais (mais raramente utilizados)

  • Gestrinona

A gestrinona é um hormônio progestagênio com efeito androgênico, aplicado através de implantes. Esses dois efeitos ajudam a reduzir as lesões de endometriose assim como os sintomas de dor. Mas, como efeitos colaterais, pode aumentar a oleosidade da pele de forma mais intensa, e com isso aumentar acne. Outros efeitos colaterais frequentes e irreversíveis são alteração da voz (voz mais grossa) e hipertrofia do clitóris (aumento do tamanho do clitóris). O formato do rosto da mulher também pode mudar com a gestrinona, em um formato mais quadrado e masculinizado. A melhora dos sintomas da endometriose com a gestrinona também está associada ao período do uso da medicação. Ao terminar o efeito, os sintomas podem retornar, junto com o crescimento das lesões.

  • Análogos de GnRH

Os análogos do GnRH são hormônios que bloqueiam fortemente uma glândula chamada hipófise, que  controla o funcionamento dos ovários. Ela provoca uma queda importante na produção de estrogênio, chegando aos níveis observados na menopausa. Pode ser eficaz no tratamento da endometriose por controlar temporariamente a dor e reduzir temporariamente as lesões. Mas seu uso é restrito a até 6 meses devido ao risco de osteoporose, e aos sintomas de endometriose. É importante salientar que após passar o efeito, as lesões de endometriose costuma voltar a crescer.

Tratamento cirúrgico com videolaparoscopia

De forma geral, todas as alternativas apresentadas funcionam bem, mas, em muitas pacientes, elas são utilizadas por tempo limitado e podem não ter o resultado desejado a longo prazo. 

Os motivos para a interrupção do uso são diversos. Um deles é a decisão de tentar engravidar e, por isso, é necessário que o organismo retorne às taxas normais de hormônios. Outra possibilidade é a não adaptação aos efeitos colaterais, que, de fato, podem atrapalhar a rotina.

Independentemente da razão que tenha feito a mulher deixar de utilizar o anticoncepcional para o tratamento da endometriose, o profissional pode acabar indicando uma alternativa mais invasiva e definitiva: a cirurgia video-laparoscópica.

De forma resumida, por meio dessa operação, são retiradas todas as lesões e aderências, melhorando ou extinguindo a dor e devolvendo a fertilidade para grande parte das pacientes.

Porém, vale ressaltar: essa possibilidade é levantada, principalmente, para aquelas que se encontrem em um grau severo de sintomas ou infertilidade. Ou para as pacientes que já tenham testado as demais opções clínicas e não tenham obtido resultados satisfatórios. Essa também é uma das melhores alternativas para se obter uma melhora a longo prazo com controle da dor, e a única forma atualmente para se retirar a endometriose. Mas para isso é recomendado que a cirurgia seja realizada por uma equipe especializada no tratamento dessa doença, já que a principal causa de recidiva da endometriose é a não retirada de todas as lesões na cirurgia.

Outros tratamentos

Independentemente do uso de hormônios ou cirurgia, todas as pacientes portadoras de endometriose se beneficiam de mudanças de hábitos e adequações do estilo de vida. Isso porque a endometriose é uma doença inflamatória crônica, e muito dessa inflamação vem do nosso dia a dia.

Por isso, recomendamos a todas as pacientes uma avaliação e ajuste nos seguintes aspectos:

  • Alimentação: reduzir ou eliminar alimentos inflamatórios das refeições, e introduzir alimentos anti-inflamatórios. A saúde intestinal também está associada a melhora dos sintomas de distensão do abdômen, melhora da imunidade e aumento da produção de serotonina. Recomendamos procurar um profissional na área para uma orientação e acompanhamento, como uma nutricionista especializada.
  • Atividade física: praticar atividades físicas regulares reduz inflamação do corpo, além de aumentar a produção de endorfinas e serotoninas, que reduzem a percepção de dor pelo cérebro.
  • Qualidade do sono: ter um sono reparador e de qualidade é importantíssimo para o corpo e cérebro se recuperar para o dia seguinte. Privação de sono está associado a maior percepção de dor, além de redução da imunidade.
  • Manejo do estresse: um dos grande vilões para a imunidade e inflamação no corpo de uma mulher com endometriose é o estresse crônico. Por isso atividades como meditação ajudam muito na melhora dos sintomas e do bem estar.
  • Saúde emocional: ansiedade, depressão e pânico são muito frequentes em pacientes com endometriose. E essas doenças quando não controladas contribuem diretamente no aumento da dor, além de contribuir pra progressão da doença. Cuidar da saúde emocional faz parte do tratamento da endometriose.

Usar ou não o anticoncepcional para endometriose?

Como vimos acima, o anticoncepcional para o tratamento da endometriose pode ser muito eficaz para o controle dos sintomas para muitas mulheres. Porém, seu objetivo é muito claro: controlar os sintomas. O uso dessas medicações não irá reduzir nem eliminar as lesões de endometriose já estabelecidas. Mas ainda sim pode ser um grande aliado para muitas mulheres.

Além desse método, existem outras alternativas. Para saber qual a melhor terapia para cada caso, é fundamental procurar um especialista para realizar uma avaliação completa. Assim, é possível avaliar os benefícios e efeitos colaterais das opções disponíveis.

Assim, fica muito mais fácil alcançar bons resultados e obter uma melhora na sua qualidade de vida!

*Dr. Tomyo Arazawa é ginecologista e obstetra. Especializou-se em cirurgias robóticas, videolaparoscópicas, video-histeroscópicas (incluindo as operações de endometriose) e em medicina reprodutiva. É membro da Sociedade Paulista de Ginecologia e Obstetrícia (Sogesp), da American Society for Reproductive Medicine (ASRM), da American Association of Gynecologic Laparoscopists (AAGL) e da International Pelvic Pain Society (IPPS). Hoje sua atuação é focada na assistência de pacientes portadoras de endometriose e dor pélvica. Acompanhe o Dr Tomyo no Instagram @drtomyo !

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Dr. Tomyo Arazawa

Dr. Tomyo Arazawa

Me formei em Medicina na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). Após a faculdade, fiz Residência Médica e especialização e Ginecologia e Obstetrícia no Hospital das Clínicas da FMUSP. Fui Médico Preceptor (chefe dos residentes) da Disciplina de Ginecologia da FMUSP logo após o término da residência médica. Me especializei em cirurgias minimamente invasivas, tais como cirurgias laparoscópicas, histeroscópicas e cirurgias robóticas. Hoje minha dedicação está voltada a atenção, assistência e estudos a pacientes com dor pélvica e especialmente endometriose.

Um comentário

  • Patricia Bernardo disse:

    Endometriose é uma loucura sem fim. Fui diagnosticada por ter todos os sintomas, fiz o tratamento com dienogeste por 9 meses, parei e agora com 3 meses sem o remédio os sintomas estão voltando aos poucos com o uso do anticoncepcional normal… Meu médico não quer me operar por eu não ter tido filhos e por ser muito nova. Parece um filme de terror! Mas vim só porque achei seu post muito explicativo, muito obrigada!

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