Zika vírus e outras infecções na gestação: podem realmente afetar o bebê?

 In Ginecologia e Obstetrícia

O mês de março começou como Tom Jobim já o cantava: com suas águas fechando o verão. É neste momento em que é preciso redobrar a atenção, pois o acúmulo de água parada das chuvas pode favorecer a proliferação do mosquito Aedes aegypti, causador de doenças como dengue, chikungunya e Zika vírus.

Esta última doença tem ganhado grande repercussão pelo fato de muitos casos de microcefalia estarem associados a ela. Pesquisas ainda estão sendo realizadas, nada está provado, mas assim como outras infecções podem ocasionar malformações no feto (inclusive microcefalia), não se pode descartar a possibilidade de que o Zika vírus também possa.

Assim como bactérias, protozoários, auto-anticorpos, drogas, medicamentos e hormônios, os vírus de maneira geral podem cair na corrente sanguínea, e alguns deles passar da mãe para o feto através da placenta. Nem toda infecção no feto causa malformação e a gravidade das interferências no desenvolvimento fetal é maior no início da gestação na maioria dos casos.

Confira abaixo relação de doenças mais comuns transmitidas na gestação e parto que são rastreadas no pré-natal:

Toxoplasmose

É uma doença causada por protozoário que está presente principalmente nas fezes dos gatos e esta é a principal forma de transmissão às gestantes (seja pela manipulação das fezes do animal ou indiretamente nos pelos do gato). Pode ser transmitida também por carnes cruas ou mal cozidas e, mais raramente, pela ingestão de alimentos mal lavados. A infecção no adulto, na maioria das vezes, é assintomática, outros podem ter dores musculares, febre, e até aumento dos gânglios do pescoço, que pode durar por muitos meses (neste evento, é chamada síndrome mono-like). Nos casos de imunidade baixa, pode haver acometimento do sistema nervoso, pulmão entre outros. O feto ou recém-nascido infectado pode ter sequela como surdez, cegueira, atraso no desenvolvimento psicomotor, anemia, convulsões, hidrocefalia, microcefalia e até aborto ou óbito fetal. Na gestante com essa infecção pode-se fazer tratamento o que diminui as consequência para o feto.

Rubéola

A rubéola é uma infecção viral que tem como sintomas erupções cutâneas, aumento dos gânglios linfáticos, febre baixa, dores articulares e cansaço. O vírus costuma ser transmitido pelo ar, através da aspiração de gotículas de saliva ou secreção nasal. Uma mulher grávida com rubéola pode transmitir o vírus para o feto, possivelmente causando problemas cardíacos, cegueira, surdez, hidrocefalia, microcefalia, aumento do fígado e baço e até aborto ou óbito fetal. Apesar de poder gerar malformações graves no feto, a boa notícia é que cada vez menos encontramos gestantes com a doença devido as vacinas. Por isso é importante estar com suas vacinas em dia.

Sífilis

É causada por uma bactéria muito comum chamada Treponema pallidum (entre 2005 e 2012 foram notificados 57.700 casos de sífilis em gestantes) e de transmissão predominantemente por via sexual. Pode se manifestar inicialmente por feridas na região genital (chamada de cancro duro), e se não tratada pode ir para corrente sanguínea, afetando outras regiões gerando sintomas inespecíficos como febre, vermelhidão no corpo. A doença também pode passar por um período sem sintomas, chamada sífilis latente, e, em casos mais graves, ocasionar problemas neurológicos como convulsões e demência. A infecção grave no feto pode ocorrer em 80% dos casos, e os sintomas podem variar desde a ocorrência do parto prematuro, restrição do crescimento, inchaço dos órgãos, anemia, alterações no pulmão, fígado, baço, pâncreas, ossos, surdez e até aborto ou mesmo a morte do bebê. O tratamento precoce com antibióticos na gestação é fundamental para diminuir a chance de alterações no feto.

Hepatite B, Hepatite C e HIV

São vírus transmitidos por via sexual e contato direto ou indireto com o sangue infectado (como compartilhar agulhas, lâminas de barbear, ou mesmo equipamentos de manicure sem esterilização adequada). Os vírus da Hepatite B e C podem causar inflamação crônica do fígado e favorecer partos prematuros. A transmissão da Hepatite B para o bebê ocorre principalmente no parto.

A Hepatite C e o HIV podem ser transmitidos da mãe para o bebê pela placenta ou durante o parto. É importante destacar que os vírus podem ser encontrados no leite materno. Nenhuma destas doenças estão associadas a malformações fetais, mas são doenças crônicas.

Alguns fatores aumentam a chance de transmissão, como por exemplo: estágio clínico avançado da doença, quantidade de vírus no sangue da mãe e coexistência de outras infecções.

Citomegalovírus

O citomegalovírus integra a família das herpes, e a contaminação é feita por secreções contaminadas, como sangue, saliva, leite materno e outros. A doença, no adulto, é geralmente assintomática, mas pode provocar sintomas semelhantes a qualquer outra infecção viral e, por isso, seu diagnóstico só pode ser feito por meio de exame de sangue. A transmissão para o bebê é feita pelo sangue durante a gravidez, mas só quando a mãe possui a infecção na fase aguda da doença. No recém-nascido causa alterações no coração, pulmão, fígado, surdez, restrição de crescimento ou microcefalia. É uma doença rastreada no pré-natal nas pacientes de risco como profissionais de saúde e imunossuprimidos (que é quando o sistema imune esta com baixa atividade).

Estreptococo do grupo B

É uma bactéria que pode estar presente na vagina da mulher e na maioria das vezes é assintomática. Contudo, se o bebê tiver contato durante o parto pode desenvolver infecções graves como pneumonias ou meningites. A pesquisa da bactéria é feita pelo “teste do cotonete” no pré natal e se positiva o tratamento é feito com antibiótico durante o trabalho de parto.

O Zika vírus

Como já dito, a doença causada pelo zika vírus é transmitida pela mesma família dos mosquitos causadores da dengue e da febre chikungunya. Os sintomas incluem febre, dor nas articulações e músculos, conjuntivite e manchas vermelhas na pele e, geralmente, surgem 10 dias após a picada. Podem ocorrer outros sintomas mais inespecíficos como problemas digestivos, dor no abdômen, náuseas, vômitos, diarreia ou prisão de ventre, aftas e coceira pelo corpo.

A relação entre zika e microcefalia foi sugerida pela primeira vez no fim de novembro de 2015, mas ainda não se sabe como o vírus atua no organismo humano, quais mecanismos levariam à microcefalia e qual seria o período de maior vulnerabilidade para a gestante. Ainda não há tratamento nem vacina para o Zika vírus.

O Zika vírus também pode ser detectado na urina, placenta, fluido amniótico e até no sêmen. O uso da camisinha é recomendado na suspeita de infecção por Zika.

Se sentir qualquer sintoma que possa indicar que está com o zika vírus, é importante procurar o sistema de saúde, e, no caso das grávidas, informar ao médico sobre qualquer alteração em seu estado de saúde, principalmente no período até o quarto mês de gestação. Um bom acompanhamento pré-natal é essencial e também pode ajudar a diminuir o risco de infecções na gestação e suas possíveis consequências para o feto.

 

*Dra. Lilian Fiorelli é ginecologista, obstetra, e possui especializações em uroginecologia e sexualidade humana pela Universidade de São Paulo. Também é membro do Grupo Médico Assistencial do Assoalho Pélvico do Hospital Israelita Albert Einstein e do International Urogynecological Association.

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